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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Dia das mães: o cuidado com a idealização materna

Maio é o mês que se comemora o Dia das Mães, um momento oportuno para tratarmos de algumas questões da maternidade, questões estas que afetam a mulher na sua experiência como mãe.
            Por uma questão cultural, acredita-se que a mulher foi feita para a maternidade. Logicamente, essa ideia parte do princípio de sua própria natureza: é ela quem gera o filho. Porém, o que vem associado à figura materna, comporta questões que ultrapassam sua natureza biológica, trazendo conflitos e inquietações às mulheres, assunto dificilmente compartilhado entre elas.
            Entendemos como a figura da mãe, aquela mulher amável, tranquila, compreensiva, acolhedora e capaz de enormes sacrifícios pelos filhos. Entendemos também que toda mulher tem o desejo de ser mãe e que esse papel é primordial em sua vida, momento em que ela se realizará como mulher.
            Na verdade, toda essa ideia em torno da figura materna foi socialmente construída, sendo inclusive bem recente dentro da História. Foi só a partir do séc. XVIII que se institui à figura materna essas características, influenciadas pelos ideais românticos próprios desse período. Antes disso, a criação dos filhos era destinada às amas de leite, e não era função das mães.
            É verdade que a maternidade faz parte do anseio de muitas mulheres, e em muitas delas se torna o ponto central de suas vidas. A questão, é que esta disposição não é passível de generalização. A ideia da maternidade como natural e instintiva deve ser desconstruída. Sua prerrogativa impõe às mulheres uma interdição a outros sentimentos e desejos que escapam daquela da mãe amorosa e idealizada. A maioria das mulheres experimenta sentimentos contraditórios e inconciliáveis com a imagem idealizada da maternidade. E assim, se estabelece um conflito entre o ideal e o vivido, levando a um sofrimento psíquico que pode se configurar como uma das bases para a depressão pós-parto.
A impossibilidade de corresponder aos altos ideais da maternidade culturalmente construída, ou seja, a da mãe perfeita e a satisfação absoluta com esse papel, tende a gerar sentimentos de desapontamento, vergonha, desilusão, fracasso e de fragilidade em relação a si mesma.
Como precaução, é preciso entender que a maternidade é menos instintiva e mais construída. E que com seu aprendizado, existe a possibilidade de se experimentar temores, dúvidas, ansiedades, e, em certos casos, sentimentos de hostilidade e rejeição. Compreender que a maternidade faz parte de uma das dimensões do rol das relações humanas, e que assim sendo, é intensa, plural e multifacetada nos abre mais espaço para a elaboração de seus conflitos e aí sim, abrir uma real possibilidade para a vivência de uma maternidade mais verdadeira e saudável.
Alessandra Munhoz Lazdan

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Rejeição da Gravidez: uma possibilidade

Socialmente, a gravidez é vista como um período feliz e esperado com grande expectativa. Na maioria das vezes, a notícia é recebida com alegria, a futura mamãe recebe muitos presentes de todas as partes, familiares e amigos – presentes estes não para ela, mas para o bebê. A partir deste momento as atenções são voltadas quase que exclusivamente para o bebê. É certo que este “serzinho” que está para chegar é merecedor de profunda atenção, contando ser ele um ser totalmente dependente, necessitando de muito cuidado e carinho.

Mas para que o período gestacional seja bem sucedido, é preciso ter um olhar especial para a protagonista desta história: a mãe. Como é que ela vivencia a gestação? Com satisfação, como esperado socialmente, ou de maneira conflituosa, como muitas vezes acontece de maneira velada? Para a mulher grávida, esta é uma fase de profundas mudanças físicas, psíquicas e sociais. Mesmo na gravidez considerada normal, do ponto de vista obstétrico, pode emergir ampla variedade de emoções como a introversão, passividade, mudanças bruscas de humor, inquietação, irritabilidade, preocupação e depressão, conseqüências da ansiedade relativa a este período.

No primeiro trimestre da gravidez, é comum observar sintomas referentes à inadaptação a este período, como a ambivalência de sentimentos, por exemplo, reconhecida por oscilações entre a aceitação e rejeição da gestação. Quando isto acontece, as mulheres costumam apresentar comportamentos regressivos, tornando-se mais exigentes, não cooperadoras, provocativas, hostis, passivas, controladoras e desinteressadas dos cuidados médicos. Estes sintomas sugerem desajuste em relação a seu estado e dificuldade em estabelecer vínculo com o feto.

Com o passar do tempo e com a ajuda do parceiro ou da família a situação tende a se normalizar. Mas não são poucos os casos em que problema persiste até o final do período gravídico. E não é recriminando estas mulheres por não aceitar o próprio bebê que elas mudarão suas atitudes. Mesmo porque não estamos falando simplesmente de um comportamento, mas de um sentimento. E se a família, e a própria mãe, não parar para olhar a situação com maior cuidado, estarão colocando em risco não apenas a vida da mulher, mas também daquele que se quer tanto proteger, o bebê.

Ao contrário do que se pensa, as gestantes que enfrentam este problema sofrem muito, principalmente pela culpa que as atormenta. As razões pelas quais não aceitam o próprio filho? São inúmeras e estritamente pessoais. Seja porque engravidou nova demais, ou porque estava no início do casamento, por motivos sócio-econômicos, porque engravidou para satisfazer um desejo do parceiro, porque engravidou solteira ou simplesmente porque não se sentia preparada. O fato, é que nenhuma delas é merecedora de julgamento moral. Mas necessitam, sim, de um tratamento adequado e urgente.

Na minha experiência na Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas em São Paulo, deparei-me com diversos casos em que se observava o sofrimento humano latente. Dentre tantas que apresentavam riscos reais (obstétricos) durante a gestação, havia uma grande procura por atendimento psicológico também por aquelas que não manifestavam graves problemas de saúde física, mas justificavam a iniciativa do tratamento para “prevenir” a depressão pós-parto! Do meu ponto de vista, um verdadeiro ato de amor e sabedoria! Estas mulheres acabavam confessando que não conseguiam aceitar a gravidez e temiam fazer mal ao bebê depois do seu nascimento. Se todas as mulheres que sofrem do mesmo problema tivessem a mesma coragem de reconhecer tal sentimento, evitariam muitas complicações na relação com o bebê, entre elas, a depressão pós-parto. Quando escutadas com respeito, estas gestantes têm a possibilidade de compreender os próprios sentimentos e elaborar o conflito, permitindo lidar com a gravidez de forma mais adequada e saudável.

Ignorar a situação pode fazer com que o problema agrave ainda mais. A percepção e ajuda do parceiro e da família neste momento são fundamentais. A procura por ajuda especializada pode ser recomendada. Todo suporte que auxilie este período é bem vindo para que a gravidez seja lembrada como uma fase de transformação e celebração da vida, estimulada pela chegada de um novo ser no mundo, o seu filho!

ALESSANDRA MUNHOZ LAZDAN
CRP 06/69627